Bernardo Rodrigues, candidato do PS à Câmara de Óbidos

“É notório o avançado estado de degradação do património histórico da vila”

Marlene Sousa

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O JORNAL DAS CALDAS prossegue nesta edição a série de entrevistas aos candidatos à presidência da Câmara Municipal de Óbidos. Bernardo Rodrigues, candidato do PS, é o segundo a responder às perguntas do JORNAL DAS CALDAS, onde refere que “é tristemente notório o avançado estado de degradação de alguns monumentos e a negligência no cuidado com o património histórico da vila de Óbidos”. No seu entender, é uma situação “incompreensível se tivermos em conta que uma das promessas do atual elenco autárquico foi mesmo obter o reconhecimento pela UNESCO de Óbidos como Património da Humanidade”.
Humberto Marques

Jornal das Caldas – Estamos numa altura complicada para o país com a crise que se abateu sobre Portugal. Com que grau de intensidade se fez sentir no concelho de Óbidos?

Bernardo Rodrigues – A crise não é portuguesa, é muito mais vasta, infelizmente. Óbidos não constitui exceção no país. O abrandamento da atividade económica no concelho é notório, o número de desempregados inscritos no centro de emprego cresceu mais de 50% nos últimos quatro anos, bastante mais do que em Caldas da Rainha. Entretanto, apesar dos dramáticos efeitos sociais da crise, o que tem sido feito pelo município poucos resultados tem conseguido. O Parque Tecnológico, por exemplo, deveria ter atraído empresas geradoras de emprego e riqueza, mas infelizmente constata-se que está muitíssimo longe das expectativas criadas pelo atual executivo camarário.

J.C. – Como avalia a gestão camarária atual?

B.R. – Entendo que a gestão pública se faz da soma sucessiva dos mandatos. É disparate fazer tábua rasa do que se fez para trás: há sempre um registo de coisas boas, que trouxeram desenvolvimento ao país, ao concelho. É por isso que não me verão fazer discursos do bota-abaixo.

No que diz respeito à atual gestão camarária, importa dizer que ela se insere num ciclo político com 12 anos, ao longo do qual se constatam vários momentos distintos. Distingo os anos iniciais deste ciclo, por terem sido muito dinâmicos e introdutores de mudanças que eram necessárias.

Mais recentemente, considero que a renovação do parque escolar, com a construção das três escolas novas, aproveitando o programa do governo socialista e os fundos comunitários, foi um bom projeto que desenvolveram, apesar das críticas que fazemos a algum despesismo e trabalhos a mais que teriam sido dispensados se tivesse havido melhor planeamento e controlo, mas também ao facto de as escolas não terem sido dotadas de soluções energéticas amigas do ambiente, o que é estranho em escolas feitas de raiz, onerando de sobremaneira as faturas do seu funcionamento.

Também consideramos um bom projeto o Parque Tecnológico, que poderá, de futuro, vir a captar investimento e a constituir-se como um polo de desenvolvimento, coisa que até agora não foi conseguido. No entanto, não podemos deixar de criticar duramente a gestão financeira do município que, apesar de avultadas receitas extraordinárias (7 milhões e meio do Royal Óbidos, já recebidos na globalidade, e 10,5 milhões de euros, da Falésia d’El Rey, cuja receita está em curso), tem uma dívida de médio e longo prazo superior a 11 milhões de euros e teve de recorrer ao resgate financeiro do governo, com um empréstimo que todos pagaremos até 2026. Esta receita extraordinária que tem vindo entrar nos cofres da autarquia à média de 3.500.000,00 anuais, deixa de entrar em setembro de 2014.

Por outro lado, é tristemente notório o avançado estado de degradação de alguns monumentos e a negligência no cuidado com o património histórico da vila de Óbidos, situação aliás incompreensível se tivermos em conta que uma das promessas do atual elenco autárquico foi mesmo obter o reconhecimento pela UNESCO de Óbidos como Património da Humanidade.

Mas é igualmente manifesto que a atual Câmara não conseguiu regular o trânsito e a circulação na Vila, que em muitos casos se apresenta caótica. E nas questões mais básicas como a limpeza das ruas, que não são lavadas, nos maus cheiros das sarjetas, na recolha do lixo que é feita à hora do jantar, prejudicando a atividade do turismo e obrigando os restaurantes a guardarem o lixo até ao dia seguinte, é manifesto o desinteresse do elenco camarário e a sua incapacidade de diálogo com os comerciantes locais, que se queixam de não serem ouvidos.

Acresce que até nas questões básicas a autarquia se mostrou impotente, como no caso da conclusão do ciclo do saneamento básico no concelho. Ou seja, em síntese podemos dizer que o início do ciclo PSD na Câmara de Óbidos se caracterizou pela ação prática – traduzida por um certo dinamismo e desenvolvimento efetivos –, ao passo que os últimos anos demonstram uma evidente ausência de concretização, em claro contraste com a abundância das promessas feitas, muitas delas incumpridas.

J.C. – Justifica-se num concelho com a dimensão de Óbidos ter empresas municipais?

B.R. – Devo dizer que, se não fosse a oposição do PS, na Câmara e na Assembleia Municipal, o executivo teria criado uma terceira empresa municipal, dedicada ao desporto, a somar às duas então existentes, a Óbidos Patrimonium e a Óbidos Requalifica… E se não fosse a pressão que o PS exerceu, provavelmente estas duas empresas não se teriam fundido numa só, a Óbidos Criativa.

Penso que tem de ser feita uma avaliação rigorosa também neste aspeto: poderá justificar-se uma empresa municipal, dadas as competências que lhe estão cometidas, mas terão que ser tidos em conta critérios estritamente racionais de funcionamento, e, sobretudo, tem de haver uma total transparência nas contas, que até hoje não existe.

“Todos são importantes e necessários, daí o nosso slogan ‘Com todos, por Óbidos’”

J.C. -.Qual a prioridade da sua equipa para as freguesias do concelho?

B.R. – A prioridade é trabalhar muito proximamente com as juntas de freguesia, que estão mais perto das populações e com todas as associações do concelho.

Isso é claramente uma das nossas prioridades. Estamos firmemente empenhados em encontrar formas alternativas de democracia participativa, agora que os modelos clássicos partidários têm perdido importância e adesão por parte das populações pelo afastamento que lhes foram induzindo. Quem está mais perto pode sinalizar pontos críticos, pode prevenir situações críticas ao atuar por antecipação.

Por outro lado, não há crescimento sustentado sem envolvimento justo de todos os munícipes. A prosperidade do concelho é função da vontade de todos, competindo aos órgãos autárquicos a tarefa de interpretar essa ambição coletiva e de providenciar as condições necessárias para que ela seja convenientemente alcançada.

A nossa aposta é, pois, numa filosofia de inclusão, onde todos são importantes e necessários, daí o nosso slogan “Com todos, por Óbidos”. Por exemplo, queremos que todos possam estudar, mesmo que a sua situação financeira seja difícil, e para isso reforçaremos o programa de apoio social aos estudantes, em particular do ensino superior. Não há territórios atrativos sem pessoas qualificadas!

J.C. – Quais as suas propostas para o desenvolvimento da agricultura do concelho?

B.R. – O setor primário em Óbidos continua a ter um enorme peso estratégico e tem de ser acarinhado. Existe uma questão central, que se prende com a barragem do Arnoia e o projeto de regadio a ela associado: é fundamental que se rendibilize o investimento já feito e se conclua o projeto, vinculando as entidades que tutelam a agricultura, beneficiando os agricultores que trabalham nesta área.

É imperioso assegurar o apoio a iniciativas inovadoras e de alto valor acrescentado, como seja a agricultura biológica/orgânica, para a qual o concelho apresenta boas condições, e que permitam atrair jovens agricultores. É necessário reforçar o apoio às fileiras mais tradicionais, como seja a produção hortícola, em que temos enorme qualidade e há que investir na marca e na sua imagem, já que o produto é muito bom e também frutícola, nomeadamente de pera rocha, em que estamos num patamar bastante elevado, porque tem havido investimento e formação nesta área.

Relativamente à viticultura/vitivinicultura a expressão é reduzida no concelho, mas é uma área a incentivar, num momento em que os vinhos portugueses estão em crescendo de qualidade e quantidade e em expansão no mercado internacional. Dentro da subárea da produção de licores, Óbidos tem tradição na ginja – também aqui é necessário incentivar o cultivo de ginjais, já que há escoamento garantido para a produção, numa fileira que está claramente em expansão.

J.C. – Se for eleito quais os eventos que quer criar ou manter em Óbidos?

B.R. – Deve fazer-se uma avaliação séria dos eventos, com a clarificação dos seus proveitos e todo o tipo de custos envolvidos, o que até agora não foi feito, de modo a identificar com rigor todas as opções futuras. Mas concordamos com a necessidade de animar a vila, sobretudo fora da época alta, e os eventos como a Vila Natal ou o Festival do Chocolate têm contribuído fortemente para tal objetivo.

Isto não implica a adesão cega ao modelo que existe: para fazer melhor, e em respeito pelo património cultural e humano da Vila de Óbidos, precisamos de avaliar criticamente. Os ajustes a fazer aos eventos vão depender desta avaliação global, e cada evento um evento: por exemplo, a Feira Medieval tem muito a ver com Óbidos, é um êxito, constitui um momento de grande partilha e com retorno económico para as associações do concelho, que deve ser preservada, com alguns acertos.

Porém, uma coisa é certa: use-se o espaço da Cerca do Castelo, mas é imperioso que o mesmo seja respeitado e, consequentemente, limpo de todas as construções e materiais estranhos ao local quando o não utilizado. Óbidos é uma terra com milénios de história, um património cultural que importa preservar e habitantes lhe dão vida e sentido. Pode ser palco de eventos? Naturalmente. Mas não pode ser transformada num mero cenário mercantil, com pouco respeito pela realidade que já lá estava desde sempre.

J.C. – Como carateriza o concelho de Óbidos na perspetiva do desenvolvimento económico avaliando os constrangimentos e as potencialidades existentes?

B.R. – O concelho de Óbidos tem um elevado potencial de desenvolvimento. Tem um património histórico e cultural importantíssimo, como são exemplo o castelo e a Vila de Óbidos, a cidade romana de Eburobrittium (mas em que lamentavelmente tão pouco se tem investido), os núcleos urbanos dispersos; um património natural fabuloso, com toda a área costeira e o ecossistema da Lagoa de Óbidos, além das paisagens rurais; tem um Parque Tecnológico em desenvolvimento, que terá de ser adequadamente dinamizado por forma a acolher muitas empresas…tem solos férteis e condições singulares para a exploração agrícola; tem bons acessos viários, fica muito próximo da capital do país e a menos de uma hora do aeroporto; tem um clima ameno, que pode atrair mercados turísticos importantes. Ou seja, potencial existe em quantidade e qualidade, o que importa agora é promover o empreendedorismo e criar condições para atrair o investimento privado na região e desenvolver a economia.

J.C. – O que diria a um eventual investidor nacional ou internacional para escolher o seu concelho como destino do seu investimento (turístico, agrário, industrial, entre outros…)

B.R. – Esta pergunta está intimamente relacionada com a anterior. Naturalmente que lhe diria que temos condições únicas para receber investimentos e propiciar mais-valias, sobretudo no plano turístico, mas também no plano agrícola e das novas tecnologias. Dir-lhe-ia ainda que investir em Óbidos é uma excelente opção de negócio uma vez que o potencial de que dispomos nas várias fileiras mencionadas é na verdade imenso, o que constitui um importante fator de segurança.

J.C. – Quais os projetos mais importantes e que considera fundamentais para o desenvolvimento do concelho?

B.R – Existem vários projetos estruturantes aos quais daremos especial atenção, e que podem ser englobados em três grandes domínios. O primeiro é o domínio da recuperação do património: a nossa maior riqueza é o património histórico, material e imaterial e património natural que nos foram legados.

A primeira preocupação terá sempre de ser recuperar, preservar, reabilitar, proteger o nosso património, que é, para utilizar uma linguagem de que não gosto, o nosso “produto”. Aqui englobamos o projeto de qualificação arqueológica e dinamização cultural de Eburobrittium; o projeto integrado de restauro e conservação do património arquitetónico/artístico da Vila de Óbidos; a recuperação do Aqueduto (boa parte em ruínas), ou a intervenção no Santuário do Senhor da Pedra.

Mas, também, a urgente intervenção na Lagoa de Óbidos, ou a proteção das paisagens agrícolas. Depois temos o domínio agroindustrial, onde há a salientar o projeto de regadio associado ao aproveitamento da barragem do rio Arnoia, e o apoio às atividades agrícolas em geral, uma das grandes riquezas do concelho, bem como o projeto de dinamização do Parque Tecnológico, nas multivariadas vertentes, mas com especial destaque para a área das tecnologias da informação e comunicação e das energias renováveis.

E, finalmente, o domínio turístico, aqui a aposta centra-se em projetos que pretendem dinamizar o turismo de qualidade e, simultaneamente, impedir a exploração desenfreada e massiva, um verdadeiro atentado ao elevado potencial turístico de que dispomos. Essa aposta deverá ser reforçada no que diz respeito à vila de Óbidos, procurando ir mais longe do que a política que tem vindo a ser desenvolvida pelo atual governo autárquico, e que basicamente transformou a vila num local turístico de passagem, aberto em horário de expediente.

Finalmente, existe um outro aspeto estruturante a que não deixaremos de dar a devida atenção. Trata-se da revisão do PDM, um instrumento de definição da estratégia do Município no que ao seu território respeita, e que consideramos essencial ao programa de desenvolvimento que defendemos.

“Óbidos tem estado de costas voltadas para Caldas da Rainha, e vice-versa”

J.C.- Diz-se que o trabalho em rede é o futuro. Se for eleito pretende criar condições para se unir a Caldas da Rainha ou a outro concelho da região?

B.R.- Com certeza que o trabalho em rede é o futuro. Preservando a autonomia política do concelho e a vontade dos munícipes, estaremos disponíveis para todas as formas de cooperação.

O tempo do esbanjamento de recursos e do trabalho de costas voltadas acabou, somos um país com parcos recursos e em crise, devemos aproveitar sinergias. Temos tudo em comum com os municípios em volta. Em tudo o que for possível, temos obviamente que ser capazes de criar economias de escala!

Por exemplo, na animação turística e nos mercados turísticos. Não faz sentido fazermos “concorrência” com eventos que se realizam a 5 ou 10 kms, temos de saber planear e concertar agendas, devemos, sobretudo procurar desenvolver complementaridades, uma filosofia geradora de riqueza, e não promover a concorrência direta, que já se percebeu ser algo em todos perdem.

E temos de saber aproveitar e pôr em comum recursos: Bombarral e Óbidos têm em comum a fileira do vinho, Peniche e Óbidos o surf e os desportos náuticos, Caldas e Óbidos, além da proximidade geográfica, têm em comum a Lagoa e a promoção de eventos. Temos de saber trabalhar em conjunto, coisa que até agora não foi conseguida. Faz algum sentido que o serviço de transportes prestado pelo OBI e pelo TOMA não esteja coordenado?

Até agora, infelizmente, Óbidos tem estado de costas voltadas para Caldas da Rainha, e vice-versa, numa birra inadmissível e que acarreta prejuízos para as pessoas.

J.C. – Se for presidente da Câmara de Óbidos vai manter ou aumentar as despesas como impostos autárquicos (IMI), água…?

B.R. – Aumentar nunca, já são demasiados altos face aos municípios vizinhos. Manter se necessário. Diminuir se possível.

J.C. – O que é que considera que a Câmara Municipal pode fazer na assistência às populações mais carenciadas no contexto da crise?

B.R. – Em tempo de crise é preciso assistir. Mas o conceito de assistência não me é o mais caro. Prefiro desenvolvimento, criação de postos de trabalho, nem que seja de trabalho socialmente útil, que põe os desempregados ao serviço de autarquias ou entidades sem fins lucrativos, em fins úteis à comunidade.

Mas obviamente que entendemos que a situação atual e os efeitos sociais nefastos em que se tem vindo a materializar, reclamam da Autarquia uma interpretação humanista e uma atuação solidária e pragmática. Deste modo, desenvolveremos uma estratégia de identificação e monitorização permanente das situações de carência de modo a estabelecer respostas adequadas, assente no papel das coletividades locais e também das juntas de freguesia, que são quem está mais perto da realidade.

J.C. – O que o diferencia em relação aos outros candidatos à presidência da Câmara de Óbidos?

B.R. – Prefiro falar da equipa do que exclusivamente de mim. Somos uma equipa forte e coesa, constituída por pessoas informadas e conhecedoras da realidade das suas terras, preparadas para gerir os destinos das freguesias e do município. Em conjunto conseguiremos assegurar um desenvolvimento próspero aos munícipes, proporcionando condições de funcionamento focadas na criação de riqueza e na fixação das pessoas, que perdurem e se diferenciem, para melhor, em relação a outras localizações alternativas.

O que nos diferencia em relação aos nossos adversários políticos é, pois, uma enorme motivação e unidade em relação aos objetivos que nos propomos atingir e, em particular, uma verdadeira predisposição e vontade intrínseca. Mas também na capacidade de escuta e no diálogo com as populações e as forças vivas do Concelho seremos claramente diferentes da atual gestão.

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