JORNAL DAS CALDAS: Na última convenção da família turística oestina, no passado mês de dezembro, voltou a defender a versão “cinco mais duas”, ou seja, cinco regiões de turismo mais Lisboa e Porto, modelo que até à terceira versão do anteprojeto estava assegurado e que reunia o consenso da própria Confederação do Turismo. Já há novidade em relação a esse modelo que defende?
António Carneiro – A única coisa que eu sei é que o dossiê terá estado nas mãos do sr. Ministro Miguel Relvas, o qual é irredutível em relação à extinção dos seis polos existentes (Douro, Serra da Estrela, Leiria/Fátima, Oeste, Litoral Alentejano) e a favor da fusão nas cinco entidades regionais (Algarve, Alentejo, Lisboa e Vale do Tejo, Centro, Porto e Norte). Tenho essa informação de várias fontes. O assunto foi agarrado por ele, uma vez que tem a área ligada também ao território. Só de uma embirração se pode tratar. Não tem qualquer justificação técnica nem política. Um dia talvez se saiba porquê. Estamos a ser injustiçados.
J.C.: Porque é que defende o agrupamento do Oeste com a área de turismo de Lisboa e Vale do Tejo?
AC: Defendo porque há cerca de vinte anos que nós fazemos trabalho conjunto com o Vale do Tejo. Há uma NUT II que se chama Lisboa e Vale do Tejo que tem uma área metropolitana e tem o Oeste e o Vale do Tejo. As áreas metropolitanas em todo o mundo, e Lisboa e Porto não são diferentes, vendem shortbreaks (escapinhas) e turismo de negócio. As áreas fora, em função do que têm, como no nosso caso em concreto, venderiam golfe, praias, enoturismo, equitação. Nada disto há em Lisboa. Então porque é que vamos misturar aquilo que é diferente? Não há problema nenhum em as coisas se misturarem, nós também vamos nos unir ao Ribatejo, que é diferente de nós, mas tem que haver a mínima coerência em termos culturais e territoriais. O Sr. Ministro Relvas é claramente um inimigo da regionalização do país, não é contra o turismo, e por isso é que quer as cinco entidades regionais. E esta afirmação dele é já a marcar terreno para que se um dia houver a proposta para a regionalização e ele estiver no governo, apresentar um mapa de cinco. Mas o mais certo é ele sair do governo mais depressa do que pensa. Eu sou amigo dele, portanto não tenho nada pessoal contra ele. Não gosto é de pessoas que embirram sobre um assunto.
O facto de sermos abafados por Lisboa é outra questão que me preocupa. A generalidade das empresas ainda não entendeu o que é que está em causa. O que está em causa é cortar ao Oeste a possibilidade de gerir o seu destino em termos de produção externa. O Oeste, por exemplo, deixa de poder ter o seu próprio território.
O Oeste e o Vale do Tejo é um território que dá muito jeito a Lisboa. A taxa de Lisboa por noite (2 noites) é uma das mais baixas das capitais europeias, se não for a mais baixa, e portanto Lisboa precisa do território circundante para vender mais noites. Se você quiser ir a Londres comprar duas noites, mas se você quiser ir a Oxford ou Cambridge, acaba sempre por comprar mais uma noite mas não vai dormir a Oxford, vai lá e volta. Portanto, Lisboa o que pretende é fazer igual e levar o turista a visitar o Oeste e voltar para Lisboa para dormir. Não tenho nada contra isso, é legítimo. Sempre o fizeram e continuarão a fazer, não há muros de Berlim. Mesmo que haja 5+2, Lisboa continuará a vender-se também com o Oeste e a Costa Azul. Os visitantes que estejam num hotel nesta região para passar 3, 4 ou 5 dias dão sempre um salto a Lisboa. Os próprios hoteleiros que fazem promoção pelo facto de nós estarmos muito perto de Lisboa e termos menos tráfego e menos poluição.
J.C.: Quando é que a proposta de lei da reorganização regional de turismo será aprovada? Acredita que ainda poderá haver alguma alteração?
A.C. – Está-se a viver uma instabilidade em relação à continuidade do Turismo do Oeste. No que diz respeito à atual proposta de lei, tenho vindo a dialogar mais frequentemente com os grupos parlamentares do PS e do PSD, e tenho feito um trabalho muito frequente com estes dois partidos no sentido de haver algumas alterações, afirmando sempre que não o fazer é um grave erro turístico. Acredito que daqui a um mês e meio teremos novidades, ou seja, a nova lei será aprovada. Só um governo arrogante é que insiste nessa solução.
“Foram muitos anos de trabalho e luta para criar a marca Oeste”
J.C: Que balanço é que faz dos seus anos como presidente do Turismo do Oeste?
A.C. – Metade da minha vida foi passada aqui. Sou presidente desde 1984, integrei a comissão instaladora em 1983 mas estou apenas a tempo inteiro desde o ano de 1998. No início vinha à sede praticamente duas tardes por semana. Depois começaram a aparecer os investimentos maiores. A região começou a ganhar outra dinâmica, tem crescido brutalmente. Em 1983, quando formámos a região de turismo, tínhamos 800 camas, das quais 560 estavam no concelho de Torres Vedras, que tinha quase 70% das camas da região, num só hotel, no Vimeiro. Só no final dos anos 80 é que começaram a aparecer os investimentos nesta área por toda a região. Nessa altura estávamos longe de imaginar que um dia teríamos hotéis de cinco estrelas no Oeste. Atualmente a região tem uma capacidade hoteleira de mais de 8000 camas, 10 vezes mais e o número vai crescer em 2013, com a abertura de novas unidades.
Estou a sofrer muito com o que se está a passar. Estamos desmoralizados porque nos envolvemos muito nas coisas. Foram muitos anos de trabalho e luta para criar a marca Oeste.
J.C: Como é que recebeu a notícia da extinção do polo do Turismo do Oeste?
A.C. – Há duas pessoas com responsabilidade pesada no PSD, que em 2009 disseram que quando fossem governo acabavam com os polos. Chegaram ao Governo e não é por acaso que tomam posse e um mês depois com tanto problema para resolver no país como havia, tendo o PS deixado o país como deixou, que o Senhor Ministro da Economia no seu primeiro discurso diz logo que vai reformular o turismo, uma lei que tinha então três anos. Foi claramente uma encomenda, e são essas mesmas pessoas que pressionaram o Governo. A secretária de Estado do Turismo, que é do CDS/PP, acabou por concordar com a tese e fazer a solução cinco mais dois. É muito curioso que o sr. Deputado Paulo Batista Santos, que reuniu comigo mais do que uma vez para defender a manutenção de Leiria/Fátima, foi agora o porta-voz do PSD na defesa da proposta na Assembleia da República e nem sequer tocou no assunto. Portanto eles já receberam ordens para estarem calados. Foi assim que chegámos a isto. Eu estou otimista em relação à decisão final. Eu diria que está minimamente assegurado um estatuto especifico para o Oeste ou para o Oeste Vale do Tejo. Ao constituir-se uma região Oeste e Vale do Tejo, esta nova estrutura passará a ter competência na promoção externa. O que não acontece atualmente com o Turismo do Oeste.
Esta sede continuará e a marca Oeste eventualmente poderá continuar com o estatuto gerido por uma entidade mais larga. O importante para as empresas é que a marca se mantenha e haja uma retaguarda de apoio.
J.C: Portanto, a sede do Turismo do Oeste continuará a funcionar com os seus funcionários?
A.C. – Sim, não tenho dúvidas. Nós seremos uma delegação. Despedimentos não haverá. Nós temos uma estrutura mínima com seis colaboradores. O que não está definido é o grau de autonomia, ou seja, estatuto da marca. É óbvio que se fosse cinco mais dois, era o Oeste e Vale do Tejo. O meu colega do Porto e Norte deu uma entrevista e disse que não haveria despedimentos no Douro. Portanto, se não há despedimentos no Douro também não haverá aqui. Modéstia àparte, nós ganhámos esse direito ao longo dos anos. Hoje o Oeste é uma região afirmada no turismo. Já se relaciona o Oeste com um determinado território e qualidade de vida. A região só não é uma marca mais poderosa porque os setores nunca souberam se unir. Por exemplo, se ao nível dos vinhos trabalhássemos como o Alentejo trabalhou ou mesmo com os produtos hortícolas. Nós temos um conjunto de produtos da região que não são do setor do Turismo mas que fazem desta zona uma californiazinha.
“Nós não estamos cá para dar subsídios às Câmaras e a eventos”
J.C: Algum destaque que queira fazer em relação ao seu trabalho e da sua equipa?
A.C. – Começámos logo a trabalhar muito com as empresas, o que nem todas as regiões conseguiram fazer. Nós não estamos cá para dar subsídios às Câmaras e a eventos. Por exemplo, a Câmara de Óbidos faz os eventos e não recebe nada de nós.
Apesar do Governo ter cortado 50% da nossa receita este ano, nós continuamos a trabalhar em prol das empresas do setor. Vamos estar representados na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL), que está em sua 24ª edição, e que acontece entre os dias 27 de fevereiro e 3 de março. Temos já confirmados dois stands enormes com 22 empresas, em que estas pagam 25% do custo do stand e nós pagamos o restante. Este ano a BTL tem uma área só para as empresas de golfe e as do Oeste vão estar gratuitamente na BTL num espaço pago por nós. Apoiar as empresas quando elas precisam é o nosso papel. Temos diálogo permanente com os hotéis, que sentem que a sede do Turismo do Oeste é a casa deles.
A região tem um património natural riquíssimo. A animação turística é um dos principais fatores para as pessoas irem para um determinado destino. Portanto, cada município deve criar circuitos turísticos com experiências diversificadas para quem nos visita.
J.C.: Vai continuar no Turismo do Oeste com a equipa que preside até à publicação e entrada em vigor da lei?
A.C. – Como a nova lei ainda não saiu vamo-nos recandidatar. Reunimos a direção e decidimos avançar para eleições para termos legitimidade total. Imagine que a lei só sai para maio. Não vamos mexer na lista que é apresentada à Assembleia Geral e as eleições serão a 8 de fevereiro.
J.C.: Do que é que vai ter mais saudades nestes anos todos no Turismo do Oeste?
A.C. – Das pessoas. Todo este ritmo e ambiente de trabalho, onde não há dois dias iguais.
Marlene Sousa (texto)





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