Vêm estas palavras a propósito da Rota Bordalliana que a CMCR está a implementar no quadro do seu programa de Regeneração Urbana. A população há-de dar pela coisa em breve: à rotunda viária do Largo da Estação está por chegar um coro de sapos a borrifar água. Na Av. 1.º de Maio há-de surgir uma rã gigante de boca aberta, rodeada de 24 palmatórias de nenúfar… ao todo são algumas centenas de elementos cerâmicos animais e vegetalistas, de várias dimensões, que vão pontuar o quotidiano, da Av. da Independência (com seis macacos na corda e uma abelha gigante…) à Rua Leão Azedo, que receberá um enorme caracol…
Bordallo foi um génio dos ofícios na convocação da natureza para servir a arte. Hoje, a sua arte pode começar por servir de decoração urbana e referência cultural, atraindo o interesse de turistas e valorizando o local, boas razões para tornar a arte pública. Mas atenção, desde que a opinião das pessoas esteja sempre convocada para opinar, complementando a obra feita.
Resta esperar que a esta modalidade da veneração de um passado mítico aponte, como exigia a visão de Bordallo, para um futuro de progresso. Em Caldas, que com esta acção se torna mais visível e ostensivamente bordaliana, a relação entre arte e natureza, cidade e progresso, não pode esgotar-se nestas louváveis acções museológicas. Depois desta operação, com impacto no imediato, deve continuar-se a lutar por consensos na criação de valor. Caldas não deveria já ser uma Marca, como Bordallo nunca deixou de ser…? E qual o lugar da cultura e das artes contemporâneas nessa estratégia? Deve lutar-se igualmente por uma gestão cada vez mais integrada de recursos – imagem urbana com carácter, qualidade de vida quotidiana, espaços verdes de excepção, paisagens de referência na envolvente, ofícios tradicionais com valor próprio, uma comunidade de jovens excepcionalmente criativa – para que os símbolos de vida que Caldas agora semeia medrem num ambiente atractivo e genuinamente inovador. A crise é exigente, precisamente nestes detalhes éticos.



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