A linguagem do vestir

Maria Fernanda Barroca

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Cada vez que uma mulher ou um homem se vestem não se protegem só do clima, fazem cultura. A moda é comunicação, uma linguagem que diz algo a nosso respeito: quer sejam homens ou mulheres, num estado de aflição ou de festa, tenham 20 ou 50 anos, sejam europeus ou africanos.

A moda constitui atualmente o conteúdo específico de muitos meios de comunicação – basta pensar no sem número de revista sobre o assunto que aparecem nos escaparates de qualquer quiosque. Tanto a moda como a forma como é apresentada dizem-nos muito consoante a qualidade dos profissionais que no-la apresentam, sobretudo se estes sabem qualquer coisa sobre o ser humano.

O cinema, a televisão, a publicidade apresentam-nos mulheres e homens que nos falam não só com palavras, mas com a sua aparência, com o seu modo de estar, com a moda. Todos estes meios influem muito ao promover imagens, estilos e tendências que servem de referência. São contudo os homens e as mulheres que têm a última palavra e que nos podem dizer o mais importante.

A moda pode ser um fator de consumismo. Ao olhar o guarda-roupa de uma mulher e calculando o que gastou no que ele contem, podemos avaliar da sua coerência com respeito à solidariedade.

Mas este facto não exclui os homens. Há os que sabem conjugar a sobriedade com o bom gosto, mas também há os que são refinados consumistas, desculpando essa fraqueza com o seu trabalho, a sua posição social ou a prática do desporto. Do homem ridículo passamos ao snob: o estudante que só usa sapatilhas de marca; o executivo cujo guarda-roupa parece uma alfaiataria; o artista ou intelectual que, usando coisas caras, toma uma aparência de descuido que toca o desmazelo.

Há porém outras razões para justificar a muita atenção dada à aparência. Há um ditado popular que diz: “A mulher bem arranjada tira o marido doutra porta”. De facto todos os maridos não gostam de chegar a casa e encontrar a mulher desgrenhada e de chinelos nos pés. Esta deve cuidar-se e muito mais à medida que os anos vão passando. Isto porém não deve ser pretexto para a vaidade ou o desperdício. Mulher «composta» não se refere só ao adorno ou à fachada, mas à ordem, bom gosto e simplicidade.

É possível que muitas mulheres não sejam conscientes do efeito que produzem ou que não seja essa a sua intenção. É possível que não tenham a sensibilidade apurada para escutar os comentários que provocam ao passar ou os olhares que lhes lançam. Têm embotado quer o chamado sexto sentido, quer o sentido comum. Isto demonstra, antes de mais uma sensibilidade pobre, uma estética sem educação, enfim – uma caricatura. Falta-lhes uma vida interior entendida em todos os sentidos e tudo fica reduzido a uma inútil, triste e oca frase – falta de decência.

Sentido estético não é esquisitice nem luxo. Não é ser escrava do bom gosto nem obcecada pela imagem. É uma atitude que nos faz admirar toda a beleza que há na terra e ter a elegância de agradecer a sua existência sem pretender tudo possuir.

Vida interior é parar para escutar outras vozes que não a própria. No sentido mais lato do termo é o que permite ter uma variedade de interesses e colocar a preocupação pela aparência no seu justo lugar. Isto é que faz com que o arranjo feminino nasça de dentro e não seja um mero artifício exterior.

E se uma mulher quer ser tratada como ‘senhora’, deve vestir-se como ‘senhora’.

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