Maria tinha noventa anos e residia num lar da terceira idade. Naquela véspera de Natal, remeteu-se ao silêncio, enquanto uma grossa e teimosa lágrima lhe corria pela face, manchando a blusa preta às floridas brancas, quando alguém lhe perguntou: – Então os seus filhos não vêm buscá-la, para passar o Natal com eles? Perante o silêncio da anciã, que entretanto limpara as lágrimas, num gesto rápido e discreto, a interlocutora, também de idade avançada e sua colega de infortúnio, pensou, num rasgo de compreensão e bom censo, que seria melhor não forçar a resposta. Quase entrevada, Maria foi conduzida numa cadeira de rodas para o solitário quarto, que em triste rotina, partilhava com mais três idosas. Era por volta das cinco da tarde, hora a que habitualmente, os “velhinhos” eram metidos na cama, onde permaneciam até às dez horas do dia seguinte. Já deitada, olhou em redor e percebeu que as três camas restantes estavam vazias. As suas colegas de quarto tinham ido passar o natal com os familiares. Então pensou: “Pelo menos assim posso chorar à vontade”! Aos noventa anos, Maria era um ser amoroso, aos olhos de toda a gente. Mas, por detrás de uma face risonha, bons modos e gargalhadas constantes escondia uma imensa melancolia e uma profunda tristeza que lhe invadiam a alma, que ela guardava só para si, muito bem escondida no fundo do seu coração. Quando as circunstâncias, de que sempre se recusou a falar, a empurraram para este lar da 3ª idade, Maria fez um pacto com a tristeza: o seu coração viveria triste até ao fim, mas aqueles que amava e que encontraram desta forma, o modo de se livrarem dela, jamais contemplariam uma lágrima sua. Ela ali estava, sozinha, sem forças para se erguer, literalmente dependente, apenas entregue à sua fé, uma fé imensa que a mãe lhe incutira em criança e que não esqueceu ao longo da vida. Então, abriu o coração a si mesma, e embora as lágrimas lhe corressem, copiosamente, pela face enrugada, entrou de mansinho, no mundo das recordações, onde não seria um estorvo para ninguém. Começou por recordar os natais distantes, de quando era criança. Em casa dos pais faltava quase tudo, menos a alegria. Sete filhos que eram todo o orgulho daqueles progenitores pobres, analfabetos, mas muito felizes. Eram quatro irmãs e três irmãos, hoje só resta a Maria e o irmão mais novo que mora em Lisboa. No ecrã do pensamento, Maria vê agora porventura, as passagens mais queridas da sua vida, as quais remontam ao tempo em que vivia com o marido e os três filhos, nos arredores da sua Aldeia, um lugar povoado de moleiros, agricultores, pastores e muitas e alegres crianças, hoje tristemente, abandonado. A vida mudou, as pessoas procuraram outros caminhos, seguiram outros rumos e o lugar que outrora serviu de berço a muitas crianças felizes, ficou deserto. Aquelas noites de natal eram inesquecíveis. Apesar da dureza da vida e das dificuldades económicas, naquela noite não faltava nada. Depois da tradicional ceia do bacalhau cozido com couves e batatas, a tarefa de fazer as filhós, durava até alta noite. Pela noite dentro, vinham os vizinhos cantar as janeiras, com o coração a transbordar de uma alegria contagiante. Crianças, jovens e adultos, emanados do mesmo espírito de festa, entoavam cânticos natalícios e dançavam, sem se cansar até o sol subir no horizonte e com eles se misturar. Maria recusou-se e entrar nas recordações dos últimos natais, que a pouco e pouco se foram desvanecendo, culminando neste último, em que se encontra absolutamente só, dependente de alguma alma caridosa que a ajude a levantar-se daquela cama, com cujo travesseiro, hoje pode conversar em voz alta, sem o receio de ser ouvida pelas colegas de quarto. No dia seguinte, dia de natal, os familiares vieram visitá-la. Este foi o primeiro natal que a idosa passou no lar, pois em anos anteriores era costume os familiares virem buscá-la, para passar com eles a noite da consoada, pelo que esperavam encontrá-la triste e abatida, mas ela mantinha bem firme o pacto com a tristeza: nada de lágrimas. Agora, recostada numa cadeira, parece distante. Era como se o seu olhar percorresse o Infinito, qual pluma que o vento eleva até às alturas, onde nada nem ninguém a poderá atingir. Quando lhe perguntaram se tinha passado bem a noite de Natal, os olhos de Maria encheram-se de brilho, e os lábios abriram-se, fazendo lembrar a harmonia extasiante do desabrochar do lírio roxo, em plena Primavera, enquanto ia soletrando, numa voz que parecia vir de longe: – Passei toda a noite com os que amo, nos lugares onde a felicidade mora. Os familiares concluíram que ela estava demente e perguntaram: – Que lugares são esses? – Maria continuou a sorrir, e envolvendo agora, aqueles que tanto amava, num olhar carregado de um profundo mistério, e uma ternura que ultrapassa a simples compreensão terrena respondeu: – São lugares maravilhosos, onde eu posso viver intensamente, todos os momentos da minha vida, pois recordar é viver, e eu tenho noventa anos, para viver recordando. Telmo locutor da Rádio Benedita FM
Maria e os seus noventa anos
Últimas
Artigos Relacionados
Fechar a estrada antes que o rio decidisse por nós
Este texto é um reconhecimento. Escrevo-o porque sei que os factos aconteceram desta forma. Porque conheço quem tomou a decisão. Porque sei como foi ponderada, discutida, insistida. E porque nem sempre quem evita a tragédia é quem aparece a explicá-la.
Jovem casal abriu negócio de barbeiro, cabeleireiro e esteticista
Foi no final de setembro do ano passado que César Justino, de 23 anos e Maria Araújo, de 22 anos, abriram o cabeleireiro 16 Cut na Rua da Praça de Touros, em Caldas da Rainha. O estúdio, que era previamente loja de uma florista, serve agora o jovem casal e inclui serviço de barbeiro, cabeleireiro e esteticista.
Concurso de cozinha na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste
O Chefe do Ano, o maior e mais prestigiado concurso de cozinha para profissionais em Portugal, revelou os 18 concorrentes apurados para as etapas regionais da sua 37.ª edição, após uma fase de candidaturas que reuniu mais de 200 profissionais.
As três eliminatórias regionais decorrerão em abril. A primeira, referente à região Centro, será realizada no dia 14 de abril, na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste, nas Caldas da Rainha. A segunda, da região Sul & Ilhas, acontecerá a 22 de abril, na Escola de Hotelaria e Turismo de Portimão.



0 Comentários